Pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025, diz dossiê

  • 26/01/2026
(Foto: Reprodução)
Acima: Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves e Carmen de Oliveira Alves. Abaixo: Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves, mulheres trans assassinadas no Brasil em 2025 Arquivo pessoal/Reprodução Um dossiê que será divulgado nesta segunda-feira (26) pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) revela que pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. O número apresenta uma queda de 34,4% em relação às 122 mortes contabilizadas em 2024. Apesar disso, segundo a Antra, o estudo mantém o Brasil pelo 17º ano consecutivo como país mais perigoso para a população trans em todo o mundo. 👉 De acordo com o dossiê, a vítima mais nova tinha 13 anos. 👉 O perfil das vítimas é majoritariamente de jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos, com requintes de crueldade. 👉 Ceará e Minas Gerais registraram o maior número de mortes: 8 em cada estado. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 no WhatsApp. As mortes de Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves, Carmen de Oliveira Alves, Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves estão entre os casos registrados (veja fotos acima). Como é feito o levantamento? O dossiê da Antra leva em conta informações publicadas em reportagens, redes sociais e fontes não governamentais. Segundo a presidente da associação, Bruna Benevides, isso acontece porque o Estado brasileiro ainda não produz dados próprios com esse recorte. Por fazer o relatório apenas com as informações disponíveis publicamente, a entidade reconhece um risco grande de subnotificação. Ou seja: o risco de que os números sejam ainda maiores. A ausência de registros em determinados estados está diretamente relacionada à subnotificação estrutural, à invisibilidade das identidades trans nos boletins de ocorrência, à recusa institucional em reconhecer crimes como transfóbicos e à dependência quase exclusiva da mídia para o mapeamento dos casos. Em locais onde a imprensa cobre menos a pauta ou onde há maior precariedade institucional, as mortes simplesmente não entram nos registros, diz Bruna Benevides. O documento ressalta ainda que o medo de represálias, a falta de acesso à Justiça, a violência policial e a desconfiança histórica das pessoas trans em relação ao Estado contribuem para o apagamento estatístico. Muitas mortes são registradas com nomes civis incorretos, gêneros errados ou nem sequer são identificadas como crimes de ódio, o que impede sua inclusão nos levantamentos, pontua a Antra. Ser trans e envelhecer: realidade invisibilizada Segundo a associação, isso vale inclusive para estados com zero casos de assassinatos de pessoas trans. O dado serve como um alerta, e não como um indício de tranquilidade. [Os estados com 'zero casos'] Representam, na maioria das vezes, territórios onde a violência não é documentada, onde vidas trans seguem descartáveis e onde o silêncio institucional substitui qualquer política real de proteção. O dossiê é explícito ao afirmar: quando o Estado não produz dados, ele também não assume responsabilidade, explica Bruna. Número de assassinatos por estado Dos assassinatos em 2025: 77 foram contra travestis e mulheres trans/transexuais 3 contra homens trans e pessoas transmasculinas Veja os números de mortes em cada estado e no Distrito Federal, segundo a Antra: Minas Gerais e Ceará: 8 casos cada Bahia e Pernambuco: 7 casos cada Maranhão, Pará e Goiás: 5 casos cada Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo: 4 casos Mato Grosso e Rio de Janeiro: 3 casos Piauí e Rio Grande do Sul: 4 casos cada Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul: 3 casos cada Amazonas, Amapá, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe: 1 caso cada Acre, Piauí, Rondônia, Tocantins e Roraima: não foram encontrados registros Veja o perfil das vítimas, segundo o dossiê Jovens trans entre 13 e 29 anos Pessoas empobrecidas, em contexto de alta vulnerabilidade social, que utilizam o trabalho sexual como fonte primária ou secundária de renda; Dentre os 57 casos em que foi possível determinar a raça/cor das vítimas, 70% eram pessoas trans negras. Muitos crimes acontecem em espaços públicos, com uso de extrema violência, revelando a combinação de transfobia, racismo e desigualdade social como motores centrais dessas mortes, diz Bruna Benevides. Caso emblemático em MG Justiça torna réus acusados de matar mulher trans por dívida de R$ 22 Uma das vítimas em 2025, Alice Martins Alves, tinha apenas 23 anos e foi espancada ao sair de um bar na Savassi, na Região Centro-Sul de BH. Ela se levantou, foi embora e se esqueceu de pagar a conta de R$ 22. Por isso, foi perseguida e espancada por dois funcionários, segundo a polícia. (veja vídeo acima). Quando ocorreu o caso, a irmã de Alice, Gabrielle Martins, chamou a atenção para a realidade de pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Afirmou que ainda existe a negligência da sociedade e do poder público dentro do contexto social em que a irmã vivia. Cautela sobre a 'melhora' nos dados O dossiê dedica um capítulo inteiro para explicar por que a redução numérica de casos registrados em 2025 não representa uma melhora no cenário real. A pesquisa lista seis fatores principais: Dificuldades crescentes de monitoramento: Falta de cooperação estatal e ausência de sistemas oficiais específicos para catalogar crimes contra a população trans Retração da mídia tradicional: 49% dos casos foram divulgados apenas em portais regionais de baixo alcance Controle nas redes sociais: Limitação de conteúdos que denunciam violência contra pessoas trans Ataques às organizações: Tentativas de deslegitimação do trabalho de entidades que monitoram esses crimes Medo e isolamento: População trans deixando de circular em espaços públicos como estratégia de sobrevivência Descrédito nas instituições: Vítimas e famílias deixando de registrar ocorrências por falta de confiança na polícia e no sistema de justiça Um dado crucial expõe a complexidade do problema: 67,5% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior, contra apenas 32,5% nas capitais. Essa interiorização da violência, em locais com acesso ainda mais restrito a redes de apoio, dificulta ainda mais a catalogação das mortes e sugere que a redução de registros em certas regiões pode ser um sintoma do isolamento geográfico das vítimas. Combatendo a violência A presidente da Antra destaca a necessidade de ações para o combate à violência contra travestis e transsexuais. Segundo ela, são necessárias políticas específicas e integradas, entre elas: Produção de dados oficiais com recorte de identidade de gênero; Políticas de prevenção à violência, formação das forças de segurança; Investigação adequada dos crimes; Responsabilização dos autores; Políticas de inclusão social; Acesso a trabalho, saúde e educação, além do enfrentamento direto à transfobia institucional Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

FONTE: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/01/26/pelo-menos-80-pessoas-trans-e-travestis-foram-assassinadas-no-brasil-em-2025-diz-dossie.ghtml


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