Em vez de negativa direta ao convite, Brasil deve questionar brechas jurídicas do Conselho da Paz de Trump
23/01/2026
(Foto: Reprodução) Espanha e Alemanha recusam convite de Trump para fazer parte do 'Conselho da Paz'
Enquanto estuda o convite feito por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, para fazer parte do Conselho da Paz, o governo brasileiro enxerga a movimentação de outros países sobre a participação no órgão como uma oportunidade para discutir a paralisia da Organização das Nações Unidas (ONU) no atual contexto geopolítico.
O Brasil também não tem pressa para responder o convite de Trump. A expectativa é de que, em vez de uma resposta direta, o governo envie pedidos de esclarecimentos técnicos sobre as brechas jurídicas do estatuto de Trump.
O governo Lula pretende utilizar o debate em torno dos interesses e modo de agir do novo órgão unilateral criado por Trump como argumento para defender uma reforma imediata do Conselho de Segurança da ONU durante a Assembleia Geral da organização, que ocorrerá em setembro.
A partir disso, a estratégia desenhada por fontes da diplomacia será a de convocar outros líderes para uma reforma que democratize o sistema da ONU. O Brasil deve alertar que, caso as mudanças não aconteçam, o mundo será governado por modelos como o proposto por Trump.
Diplomatas enxergam o plano de Trump como um atestado da falência do atual sistema multilateral. Destacam que o novo órgão só ganha tração porque o Conselho de Segurança não consegue mais resolver crises como a de Gaza.
"Se Trump parar o genocídio em Gaza, ele prova que a ONU não serve mais para nada no formato atual", avaliou uma fonte ligada à diplomacia do Brasil.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Ricardo Stuckert/Presidência da República
Conselho da Paz de Trump
Na avaliação de auxiliares do presidente Lula, a proposta de Trump para o Conselho da Paz tem problemas:
Presidência fixa: Diferente do rodízio da ONU, o comando seria exclusivo dos EUA.
Governança por assinatura: O estatuto exige o pagamento de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões) para que os países garantam um assento permanente.
Falta de diálogo: Trump já sinalizou que não aceita emendas ao texto; os países apenas "aderem" a um contrato pronto.
Fontes do governo brasileiro também fazem uma leitura pragmática de que, se o conselho de Trump conseguir interromper o conflito em Gaza — algo que a ONU não foi capaz de fazer —, isso servirá como a prova definitiva da falência institucional das Nações Unidas.
"Se Trump parar o genocídio em Gaza, ele prova que a ONU não serve mais para nada no formato atual", avaliou uma fonte ligada à diplomacia do Brasil.
A avaliação da diplomacia é de que o Brasil não deve aceitar um convite no qual países apenas aderem a um estatuto pronto e unilateral escrito por Washington.
O Brasil só participará se as bases do conselho forem renegociadas do zero, com o país atuando como um dos formuladores das regras e não apenas como um membro figurante.
Diplomatas classificam o modelo de Trump como uma "paz mercantil", por condicionar o peso das decisões ao aporte financeiro dos membros.
Apesar dos palestinos verem com bons olhos a entrada do país no grupo, outro ponto de atrito é a ausência de atores-chave, como a Autoridade Palestina, que sequer foi consultada sobre o estatuto.
Para o governo brasileiro, um conselho que já nasce sob a presidência fixa dos EUA e com apoio explícito de apenas um dos lados do conflito é visto com preocupação.
O governo brasileiro observa que o debate sobre a entrada no colegiado possa ser levado para o segundo semestre, chegando mais quente como tópico principal dos debates na Assembleia Geral da ONU, em setembro.